De todos os textos publicados esta semana sobre o centenário do Galo, talvez do do Mauro Betting tenha sido o melhor.
Para quem não leu, aqui vai:
COISAS QUE SÓ O ATLETICANO ENTENDE
por Mauro Beting
O melhor lance do Atlético não foi num jogo. Foi fora dele. Foi numa
derrota. Minto, num empate de um time invicto, o supervice-campeã o
do BR-77.
Não foi o melhor jogo ou jogada. Mas não teve nada mais atleticano
que aquilo: depois da derrota nos pênaltis para o São Paulo,
Mineirão e Brasileirão estupefatos pela queda sem derrota de um
senhor time de bola, os jogadores baqueados e barreados pela chuva e
pela lama se abraçaram no gramado e assim foram ao vestiário.
Foi a primeira vez que vi a cena reverente que virou referência.
Ninguém estava fazendo marketing (nem existia a tal palavra). Nenhum
jogador estava jogando pra galera. Era fato. Time e torcida estavam
juntos naquele abraço doído e doido. Como tantas vezes o atleticano
esteve junto com o time. Qualquer time.
Nada é mais atleticano que aquilo: um time que se comportou como o
torcedor. Solidário na dor, irmão no gol. O atleticano é assim: tem
a coragem do galo, mas não a crista. Luta e vibra com raça e amor.
Mas não se acha o dono do terreiro.
Sabe que precisa brigar contra quase tudo e contra quase todos. Até
contra o vento, na célebre imagem de Roberto Drummond. Aquela que
fala da camisa preta e branca pendurada num varal durante uma
tempestade. Para o escritor atleticano, ou, melhor, para o
atleticano escritor, o torcedor do Atlético sopraria e torceria
contra o vento durante a tormenta.
Não é metáfora. É meta de quem muitas vezes fica de fora da festa.
Não porque quer. Mas porque não querem. Posso falar como jornalista
há 17 anos e torcedor não-atleticano há
41: não há grande equipe no país mais prejudicada pela arbitragem.
Os exemplos são tantos e estão guardados nos olhos e no fígado. Não
por acaso, o atleticano acaba perdendo alguns jogos e títulos ganhos
porque acumulou nas veias as picadas do apito armado.
Algumas vezes, é fato, faltou time. Ou só sobrou raça. Mas não
faltou aquilo que sobra no Mineirão, no Independência, onde o Galo
for jogar: torcida. Pode não ser a maior, pode não ser a melhor,
pode até se perder e fazer perder por tamanha paixão, cobrando gols
do
camisa 9 como se todos fossem Reinaldo, pedindo técnica e armação no
meio-campo como se todos fossem Cerezo, exigindo segurança e
elegância da zaga como se todos fossem Luisinho.
Mas não se pode cobrar ninguém por amar incondicionalmente.
O atleticano não exige bola de todo o time. Não cobra inspiração de
cada jogador. Quer apenas ver um atleticano transpirando em cada
camisa, em cada posição, em cada jogada. Por isso pede para que o
time lute. É o mínimo para quem dá o máximo na arquibancada.
A maior vitória atleticana é essa. Mais que o primeiro Brasileirão,
em 1971, mais que o vice mais campeão da história do Brasil, em
1977. Os tantos títulos e troféus contam. Mas tamanha paixão, essa
não se mede. Essa é desmedida. Essa é a essência atleticana.
Essa é centenária.
Essa é eterna.