Na capa da Vogue Americana, lembra?
Pois, pra encerrar, que tal João Pereira Coutinho?
King Kong
João Pereira Coutinho
Colunista da Ilustrada
Sou amigo de negros. Sou amigo de homossexuais. Sou amigo de lésbicas.
Não sou amigo de negros politicamente corretos, homossexuais
politicamente corretos, lésbicas politicamente corretas. Pessoas que
se deixam infantilizar pela cartilha das patrulhas não entram na minha
lista pessoal.
Porque esse é o problema central do pensamento politicamente correto:
ele vê o demónio em toda a parte e acredita que é necessário proteger
quem não pediu para ser protegido. É assim que a pessoa X ou Y, que
tem nome, rosto e identidade singular, deixa de ser a pessoa X ou Y.
Passa a pertencer a um grupo geral - os negros, os homossexuais, as
lésbicas - uma forma sinistra de dissolução identitária. Lamento. As
pessoas valem como pessoas. Não valem como parte de uma manada.
Reprodução
Jogador da NBA LeBron James posa com modelo Gisele Bündchen para “Vogue”
Basta olhar para o que sucedeu recentemente com a revista “Vogue”.
Pela primeira vez em 116 anos de história, a revista resolveu colocar
um negro na capa. A honra coube a LeBron James, uma estrela de
basketball dos Estados Unidos. Mas LeBron não está sozinho: a
brasileira Gisele Bündchen está ao seu lado, segurada pela cintura.
Gisele sorri. LeBron simula um grito de guerra, ao mesmo tempo que tem
uma bola de basket na outra mão.
Quando vi a capa, senti o que qualquer homem pode sentir: uma imensa
inveja de LeBron James. Mas as patrulhas não vêem as coisas da mesma
forma: especialistas vários, confrontados com a capa, criticaram de
imediato a “Vogue” por reproduzir estereótipos racistas.
Para a maioria, a capa evoca diretamente King Kong, o macaco gigante
que segurava Fay Wray no filme de 1933. Ou seja, LeBron foi reduzido à
condição de símio.
Para outros, a perversidade da “Vogue” não se ficou pela redução
animalesca: LeBron é um macaco e, pior, um macaco violador, apesar do
sorriso generoso que Gisele ostenta nos seus braços. No fundo, o velho
cliché do negro que deseja uma branca para brincar.
Uma vez mais, o pensamento politicamente correto não perdeu um minuto
para fazer o óbvio: perguntar ao próprio LeBron James - uma pessoa com
nome, rosto e identidade singular - o que pensava ele de tudo isso.
Para as patrulhas, um negro não pensa; pensam elas por ele.
Azar. O próprio LeBron, comentando os comentários, considerou-os
absurdos e ridículos. E acrescentou, para que não restassem dúvidas,
que lhe era indiferente o que os outros pensavam.
Não, LeBron não seria apenas meu amigo pessoal. Mais do que isso, ele
já é meu ídolo pessoal: quando temos Gisele Bündchen nas mãos,
chamarem-nos King Kong é o menor dos problemas.
João Pereira Coutinho, 31, é colunista da Folha. Reuniu seus artigos
para o Brasil no livro “Avenida Paulista” (Ed. Quasi), publicado em
Portugal, onde vive. Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para
a Folha Online.